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Tempo

Sem querer fiquei com tempo, mais tempo do que eu já tinha. Eu tinha muito tempo livre, mas era tão livre que passava rápido. Agora nem o que antes distraía e fazia o tempo passar é mais possível fazer. Não poder aprisiona, mas também liberta. O tempo agora está realmente livre. Para descansar sem distração. Ler um livro, assistir um filme, fazer um curso, escrever um texto sem desviar dos objetivos no meio do caminho. Só não pode sobrar tempo para essa angústia que bate na porta toda vez que a gente olha para a porta e tem vontade de ir pra fora. Aquele nó no coração que sobe para a garganta quando a gente lembra da programação de semanas atrás. Que saudade dos amigos, que vontade de ir ao restaurante, que vontade de ir à academia, que vontade de fazer tudo que fazia o tempo passar e a gente nem percebia. Mas, agora que o tempo é tempo, que a gente tá sentindo ele no ritmo verdadeiro vou dormir, tentar sonhar com os beijos e abraços que em breve - passe rápido, tempo! - ei de da...

Corona, vírus do distanciamento

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Imagine uma criança insegura ao ver tudo ficar deserto e os comportamentos mudarem. Agora imagine ela perceber uma situação grave, começar a chorar, correr de vez - como de costume - para os braços da mãe e não ser acolhida. Ser barrada do abraço, não receber a cura do conforto maternal. Eu mesma senti uma angústia enorme ao imaginar essa cena e mais ainda ao pensar que essa é a realidade de muita gente hoje nos países onde o corona vírus está em pico. Cientificamente ficou comprovado que a melhor forma de prevenção é o distanciamento social. Ou seja, esteja com as pessoas, no mesmo ambiente, mas mantenha distância de dois metros. A transmissão é por contato, até metro e meio de distância, e não pelo ar. Já parou para pensar como é ver pessoas queridas e não poder abraçá-las? Namorar uma pessoa e não poder beijá-la? Me peguei triste no final da tarde de uma sexta-feira ao imaginar ir ao aniversário de meu priminho e não poder enchê-lo de beijinhos e fazer cócegas para ver e ouvi...

Mulher

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Pensei mil formas de começar este texto e não achei nenhuma que representasse o que eu quero falar. Parece estranho, mas isso aconteceu porque muita gente já escreveu e definiu o que é ser mulher, o que nós sentimos, o que representamos, a nossa importância e por aí vai. Mas, depois de tantas palavras bonitas, profundas e representativas, o que delas realmente foi feito? Apesar dos textos verdadeiros e emocionantes, não seria, além de uma homenagem, uma forma de enquadrar novamente em padrões? Não os mesmos de antes, mas novos padrões que são criados de tempos em tempos, seguindo a nossa necessidade humana de sempre definir conceitos, comportamentos, padrões e, consequentemente, criar julgamentos. Bom mesmo seria se a gente pudesse ser só a gente: ser e fazer o que dá na telha, desde que isso não invadisse o direito e não desrespeitasse o outro. Amo ser mulher, de fato há um botão de um feeling ligado na gente que faz toda diferença. Mas, o mais legal mesmo é conseguir ser livre...

Reconhecimento

Olhar para alguém e não reconhecer com quem esteve por toda a vida, mesmo sabendo que aquela à sua frente é exatamente a mesma pessoa, é daquelas dores longevas: você sofre um pouco a cada dia, fica confuso, sem saber como lidar. O caminho até a aceitação é tortuoso. Das peças que a vida nos prega essa é uma delas: quase todos que vivem muito tempo passam por esse processo. O não reconhecimentos é como uma bola de neve. O idoso não se reconhece naquela situação de fragilidade, de dependência. Difícil aceitar que a própria vida já não é mais assunto só dele e que não tem mais autonomia. Isso leva a uma reação difícil de lidar no dia a dia. A criança teima para aprendizado, por não saber o que vem depois. O idoso teima porque sabe o que pode vir , na cabeça dele tem experiência suficiente para decidir o que está disposto a bancar. Mas, ele já não é aquele adulto responsável por seus próprios atos, a realidade não o permite mais bancar suas próprias decisões. Existem vários “não pode”...

Ê ô ê ô laiá

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Se você é baiano, ao ler o título automaticamente completou cantando “já pintou verão, calor no coração, a festa vai começar…”. Não há explicação para a nossa conexão com o carnaval. Em 2019 estava viajando. De longe sofri revivendo as lembranças. Em 2020, na prévia, vivi dias de hospital, estava sem trabalhar e, por isso, desanimada. De repente, comecei a ganhar ingressos e a receber convites de pessoas queridas para ir à rua. Despretenciosamente fui e, depois da primeira pipoca na sexta-feira, não fiquei mais em casa. Como explicar o sentimento que nos toma? Há uma liberdade tão grande em caminhar quilômetros, brincar com as pessoas, dançar, ver gente, celebrar. A sensação é de que a vida dá um pause, há a permissão para se esquecer todos os problemas e quase todas as responsabilidades e apenas aproveitar. Genuinamente curtir o cansaço, o suor, o aperto e se sentir feliz por ter passado por tudo isso. O carnaval nos permite conhecer pessoas com as quais jamais teríamos contat...

O câmbio do seu sonho

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Qual o câmbio do seu sonho? Lembro de quando entrar no avião e ir aonde quisesse ainda era um sonho distante. Olhava para os lados, fazia as contas para o futuro próximo e nada me dava perspectiva de alcançar. Naquela época, crédito era coisa nova e avião estava começando a fazer parte do dia a dia de pessoas como eu, que vivia uma vida média. Não importava o câmbio, porque fosse para ver o Mickey ou a terra de Roberto Carlos, o dinheiro não dava. Eis que a vida deu algumas voltas e lá estava eu sonhando com as mesmas coisas, mas desta vez já conseguia vê-los realizados num futuro não tão distante assim. Nesta época já era viável esperar a cotação do câmbio. Mas, para conseguir concretizar ainda se passaram mais 10 anos. Comecei de fato a realizar há um ano e há bem menos do que isso consegui ir à Disney. Ainda não a mais famosa, nos Estados Unidos, mas na filial europeia. O câmbio estava dos piores. Para estudar fora, viajar etc vendi um carro, fiz bazar e tive uma família que, ...

Um dia de anjo

Pensei duas vezes se parava o carro na rua só pra dar um tchau e falar com alguém que não via há um bom tempo. Era uma dessas pessoas que se a gente ver lembra com carinho, mas que não faz parte das nossas lembranças rotineiras. Minha intuição deu um estalinho no lado esquerdo do ouvido e decidi dizer oi, quer carona?! A conversa começou com aquele script tradicional e, de repente, numa dessas perguntas que todo mundo faz para todo mundo, a pessoa teve o dia de anjo. Nas coincidências da vida, a pessoa já tinha passado pela mesma angústia que me acomete e ela pode ser meu anjo por um dia. Veja só se não é coisa do céu você cruzar tão de repente com alguém e dali sair uma palavra de conforto, a palavra que você não está sozinho no mundo em seus sentimentos e questionamentos. Todo mundo ao menos por um dia, querendo ou não, é anjo de alguém. Um simples “é, eu também”, ou “eu já vivi isso”, “concordo com você”, só o fato de te deixar falar sem encurtar a conversa, que começou só como ...