Reconhecimento
Olhar para alguém e não reconhecer com quem esteve por toda a vida, mesmo sabendo que aquela à sua frente é exatamente a mesma pessoa, é daquelas dores longevas: você sofre um pouco a cada dia, fica confuso, sem saber como lidar. O caminho até a aceitação é tortuoso. Das peças que a vida nos prega essa é uma delas: quase todos que vivem muito tempo passam por esse processo. O não reconhecimentos é como uma bola de neve. O idoso não se reconhece naquela situação de fragilidade, de dependência. Difícil aceitar que a própria vida já não é mais assunto só dele e que não tem mais autonomia. Isso leva a uma reação difícil de lidar no dia a dia. A criança teima para aprendizado, por não saber o que vem depois. O idoso teima porque sabe o que pode vir , na cabeça dele tem experiência suficiente para decidir o que está disposto a bancar. Mas, ele já não é aquele adulto responsável por seus próprios atos, a realidade não o permite mais bancar suas próprias decisões. Existem vários “não pode” em sua vida. Limitações que são físicas ou externas, pela luta por cada diazinho a mais de vida. E à medida que o corpo matura, também acontece com a personalidade. Algumas vezes aquela pessoa boa, que inspirou, amou já não é tão doce, tão compreensiva, perdeu o filtro. Já não se importa se uma palavra machuca, se a irritabilidade fere, se o outro tem opinião diferente. É tão ruim se ver naquela condição que tudo já não tem mais o mesmo prazer, o mesmo valor e de tudo reclama-se. Esse processo do próprio não reconhecimento deforma também a imagem que as pessoas ao redor têm daquela pessoa. O amor está ali, permanece intacto. A gratidão é cada vez maior. A atenção também. Mas, torna-se raro ter a sensação de companheirismo quando o compasso perde a curva. A paciência é testada todos os dias. Essas atitudes tão diferentes de toda a vida não são por mal, mas parte do processo. Como se diz, “é da idade”. Saber tudo isso descrito até aqui não é suficiente para viver essa experiência. Não prepara nenhum dos lados para conviver com isso. Saber que é difícil não ameniza a dificuldade, não ameniza a dor. Nenhuma teoria, consciência ou razão significam ou ressignificam a prática. Eu poderia passar horas aqui exemplificando, mas não adianta. É tão sublime que já não sei nem como terminar este texto.
Pauliane Araujo
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