Ê ô ê ô laiá
Se você é baiano, ao ler o título automaticamente completou cantando “já pintou verão, calor no coração, a festa vai começar…”. Não há explicação para a nossa conexão com o carnaval. Em 2019 estava viajando. De longe sofri revivendo as lembranças. Em 2020, na prévia, vivi dias de hospital, estava sem trabalhar e, por isso, desanimada. De repente, comecei a ganhar ingressos e a receber convites de pessoas queridas para ir à rua. Despretenciosamente fui e, depois da primeira pipoca na sexta-feira, não fiquei mais em casa. Como explicar o sentimento que nos toma? Há uma liberdade tão grande em caminhar quilômetros, brincar com as pessoas, dançar, ver gente, celebrar. A sensação é de que a vida dá um pause, há a permissão para se esquecer todos os problemas e quase todas as responsabilidades e apenas aproveitar. Genuinamente curtir o cansaço, o suor, o aperto e se sentir feliz por ter passado por tudo isso. O carnaval nos permite conhecer pessoas com as quais jamais teríamos contato se não fosse nesse momento, interagir com quem não faz parto do nosso ciclo, estar no mesmo patamar de qualquer um ao nosso redor na rua. Esse é o verdadeiro poder de todas as grandes manifestações culturais. Pude perceber mudanças importantes nos hábitos em torno do carnaval de Salvador nos últimos quinze anos. Desde o boom dos camarotes, onde chegou-se a pensar que esse formato de “festa dentro da festa” dominaria, à volta total da pipoca e queda das cordas. Já vi e reportei crise de formato, de festa, queda e ascensão de participação, de número de turistas, mas foi neste ano que entendi que não importam os padrões dados pelos órgãos oficiais, é a força da nossa raiz cultural que faz o carnaval acontecer.
Pauliane Araujo
Pauliane Araujo
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