O limbo
Estou escrevendo esse texto mais de dez da noite, com a luz do quarto apagada, televisão ligada no futebol, o qual eu não estou prestando atenção. Celular na mão, pernas semi dobradas, estou largada entre travesseiros e almofadas. Meus dedos tentam acompanhar a velocidade de meus pensamentos. Fujo do tradicional nos tempos modernos - o vídeo como ouvinte. Se o fizesse, atualizaria o feed, ainda poderia ganhar seguidores e, porque não, um negócio. Se eu pensei isso tudo até aqui, essa possibilidade com certeza já me passou pela cabeça. Aliás, já me atormentou com a pergunta “por que eu não fiz e não consigo fazer isso?”. Talvez me encante o antigo. Talvez me encantem as palavras no silêncio da arte das mãos... É mais confortável pra mim do que a comodidade de apenas soprá-las ao vento, ou ao vídeo. No silêncio dos meus pensamentos consigo organizar meu coração com mais completude do que no exercício daquilo que eu tanto sei fazer: falar. Flui tão fácil... Tanto que gastei todas essas linhas até aqui desenhando sobre aquilo que nem era o foco do texto. Lembrei do foco da notícia, do lead, do trabalho, voltei ao assunto... Limbo. Não sei se vou pra felicidade ou pra tristeza, apenas não sei o que sinto. Vim de uma noite anterior mal dormida como acompanhante de meu pai idoso no hospital. A privação do sono nos faz estar em confusão mental e em mim aflorou o embaçamento das emoções, por não saber o que sentir diante de tantas questões. A vida tem me levado nos últimos meses, tenho respeitado este tempo dela. Mesmo que não o quisesse fazer, como antes, quando as rédeas eram minhas de todas maneiras, não conseguiria fazer diferente desta vez. Cheguei de uma jornada de mudança, assunto para depois, e me coloquei na posição de viver. Agora estou apenas sentindo o que a vida tem me dado. E neste momento tem acontecido muito nada pra meu gosto. Os dias correm sem eu conseguir começar a dar um rumo do que farei daqui pra frente, são muitas opções, mas nada ainda engatou. Então faço e espero por uma delas. Mas, qual? A vida ainda não me contou. Se não bastasse isso, meu pai ficou doente. A enfermidade tem exigido de nós: tempo, disposição, emoção e, com isso, o resto da vida ficou de Stand by. Os projetos esperados estão em modo pause enquanto automaticamente vivo a doença de meu pai. Agora já não sei o que sentir. Cansada de não dormir, também cansada do que muitos podem chamar de fazer nada. Eu não chamo esse momento assim, pois não faço fotossíntese. Estudo, leio, escrevo, planejo, tento... Mas, estes gestos ainda não trouxeram o verbo, a ação. O tempo passa mais rápido do que a vida sentida. O descompasso dos ponteiros e a falta de freio do relógio me indagam: “e aí?” Eu respondo. “Não sei nem o que sinto, imagine o que será.” Não seria esse o limbo? Aquele momento em que depois das suas escolhas você está no Stand by dos planos de Deus, esperando pelo seu destino eterno. Pode ser, deve ser. Não sei, agora só sei que fiquei com sono e preciso dormir. Amanhã se inicia um novo dia. Quem sabe o projeto pra este texto sai de fato da imaginação e o gesto gera um verbo que abre caminhos?!

Emocionante!!!
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