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Ê ô ê ô laiá

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Se você é baiano, ao ler o título automaticamente completou cantando “já pintou verão, calor no coração, a festa vai começar…”. Não há explicação para a nossa conexão com o carnaval. Em 2019 estava viajando. De longe sofri revivendo as lembranças. Em 2020, na prévia, vivi dias de hospital, estava sem trabalhar e, por isso, desanimada. De repente, comecei a ganhar ingressos e a receber convites de pessoas queridas para ir à rua. Despretenciosamente fui e, depois da primeira pipoca na sexta-feira, não fiquei mais em casa. Como explicar o sentimento que nos toma? Há uma liberdade tão grande em caminhar quilômetros, brincar com as pessoas, dançar, ver gente, celebrar. A sensação é de que a vida dá um pause, há a permissão para se esquecer todos os problemas e quase todas as responsabilidades e apenas aproveitar. Genuinamente curtir o cansaço, o suor, o aperto e se sentir feliz por ter passado por tudo isso. O carnaval nos permite conhecer pessoas com as quais jamais teríamos contat...

O câmbio do seu sonho

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Qual o câmbio do seu sonho? Lembro de quando entrar no avião e ir aonde quisesse ainda era um sonho distante. Olhava para os lados, fazia as contas para o futuro próximo e nada me dava perspectiva de alcançar. Naquela época, crédito era coisa nova e avião estava começando a fazer parte do dia a dia de pessoas como eu, que vivia uma vida média. Não importava o câmbio, porque fosse para ver o Mickey ou a terra de Roberto Carlos, o dinheiro não dava. Eis que a vida deu algumas voltas e lá estava eu sonhando com as mesmas coisas, mas desta vez já conseguia vê-los realizados num futuro não tão distante assim. Nesta época já era viável esperar a cotação do câmbio. Mas, para conseguir concretizar ainda se passaram mais 10 anos. Comecei de fato a realizar há um ano e há bem menos do que isso consegui ir à Disney. Ainda não a mais famosa, nos Estados Unidos, mas na filial europeia. O câmbio estava dos piores. Para estudar fora, viajar etc vendi um carro, fiz bazar e tive uma família que, ...

Um dia de anjo

Pensei duas vezes se parava o carro na rua só pra dar um tchau e falar com alguém que não via há um bom tempo. Era uma dessas pessoas que se a gente ver lembra com carinho, mas que não faz parte das nossas lembranças rotineiras. Minha intuição deu um estalinho no lado esquerdo do ouvido e decidi dizer oi, quer carona?! A conversa começou com aquele script tradicional e, de repente, numa dessas perguntas que todo mundo faz para todo mundo, a pessoa teve o dia de anjo. Nas coincidências da vida, a pessoa já tinha passado pela mesma angústia que me acomete e ela pode ser meu anjo por um dia. Veja só se não é coisa do céu você cruzar tão de repente com alguém e dali sair uma palavra de conforto, a palavra que você não está sozinho no mundo em seus sentimentos e questionamentos. Todo mundo ao menos por um dia, querendo ou não, é anjo de alguém. Um simples “é, eu também”, ou “eu já vivi isso”, “concordo com você”, só o fato de te deixar falar sem encurtar a conversa, que começou só como ...

Choro ciclo da vida

O bebê chora, o coração de quem ouve acelera. A angústia por entender o que ele está sentindo. Seria tão mais fácil se falasse. Um chameguinho, um sorrisinho, um calorzinho no coração. Mas, o bebê chorou de novo, mamou. Chorou, remedinhos para cólica, chorou, soninho, passou. O bebê chorou, olha os dentinhos! Aos poucos o bebê deixa de chorar e suas necessidades são verbalizadas. O tempo passa, pais e filhos dialogam. No início apenas a obediência, mas para tudo há uma explicação. Depois, na adolescência, a contestação. Nossa, que chateação tanta discordância, tanta insistência! Mais um tempo passado e os embates tornam-se conselhos, apoios, divergências que resultam apenas em opiniões diferentes. Já não há mais o espaço para as ordens, apenas o respeito por um passado de abdicação e amor. Então, os pais viram expectadores da vida dos filhos. Aconselham, torcem, festejam, lamentam. Até que um dia, de repente… Tudo para. Inesperadamente, o choro de quem um dia acalentou. Dessa vez, ...

Só

Quero comer japonês.  Não fui.  Quero ir ao bar, não fui.  Quero ir ao cinema.  Também não fui.  O dia passou levado pelo dia a dia. O inevitável roubou os ponteiros.  Olho para a grama do vizinho, ela está verde.  Ele foi.  Penso nos amigos.  São muitos e querido.  Estão sempre comigo. Em pensamento. No coração. Entre as teclas dos meus dedos. Na hora de ir... Eles foram. Eu não fui. Estou só.

Dormência

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Estou seguindo os afazeres da vida. Bom dia! Acorda, come, toma banho, vai à academia, faz o que tiver de fazer. Faço isso no automático e a sensação é que não sou eu. Estou ali, mas não estou. Minha mente fervilha, roda sem ficar tonta. Pensa no que não é. Na Europa que fui e não fiquei, podia ter sido um pouco mais. Pensa nos países que ainda não fui. Volto pra realidade. Penso no que ainda não consegui, na oportunidade que não veio. Não estar trabalhando, não estar produzindo, quanta angústia em observar o tempo passar no mesmo ritmo em que tanta coisa está na cabeça, mas os ponteiros não se encontram. Aí penso no futuro. O que será dele? O que será quando o emprego vier, a viagem fizer? Tudo igual como era antes. A angústia volta. O mais do mesmo me assusta. Quando será diferente? Lembro do nada acontecendo. O coração palpita e pede mais do mesmo. A mente imagine que se pelo menos volta mais do mesmo, alguma coisa acontece e deixa de ser tudo como antes... A mente deu tanta ...

O limbo

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Estou escrevendo esse texto mais de dez da noite, com a luz do quarto apagada, televisão ligada no futebol, o qual eu não estou prestando atenção. Celular na mão, pernas semi dobradas, estou largada entre travesseiros e almofadas. Meus dedos tentam acompanhar a velocidade de meus pensamentos. Fujo do tradicional nos tempos modernos - o vídeo como ouvinte. Se o fizesse, atualizaria o feed, ainda poderia ganhar seguidores e, porque não, um negócio. Se eu pensei isso tudo até aqui, essa possibilidade com certeza já me passou pela cabeça. Aliás, já me atormentou com a pergunta “por que eu não fiz e não consigo fazer isso?”. Talvez me encante o antigo. Talvez me encantem as palavras no silêncio da arte das mãos... É mais confortável pra mim do que a comodidade de apenas soprá-las ao vento, ou ao vídeo. No silêncio dos meus pensamentos consigo organizar meu coração com mais completude do que no exercício daquilo que eu tanto sei fazer: falar. Flui tão fácil... Tanto que gastei t...