Cala a boca, Magda!


O jargão do genial Miguel Falabella até hoje está fixado na cabeça da geração que assistia entusiasmada ao programa Sai de Baixo, como eu. O que hoje, vinte anos - ou um pouco menos - depois, podemos analisar é o contexto daquilo que dávamos risada no passado e como a sociedade mudou. O “cala a boca Magda” representa a sociedade Patriarcal, Machista, na qual o chefe da família tinha todo o direito de cortar abruptamente o direito de fala da mulher, vista como - assim como a personagem Magda - sempre burra em relação ao marido. O lugar de fala da mulher era o de submissa. E hoje não cabe, ainda que persista. Poderia passar o texto inteiro abordando este aspecto de gênero da frase, mas precisamos analisar agora a agressividade e o aprisionamento embutidos na frase “cala a boca!”. Usamos quando estamos chateados e, sim, queremos agredir - ainda que verbalmente - aquele que nos diz algo que não nos agrada. Estamos agredindo e cerceando a liberdade de expressão do outro, colocando-o (ao menos em nosso imaginário) em posição de inferioridade e submissão. Fazemos isso constantemente em nossos relacionamentos interpessoais e, pela prática, garanto: nunca termina com boas consequências. Seja a gente a pessoa quem emite o “cala boca”, ou quem recebe. Agora levemos essa frase para o âmbito profissional, político, onde não cabem sentimentos e relações interpessoais. Aqui tudo o que é dito recebe conotação histórica, factual e legal. Então dizer “cala a boca” a uma classe trabalhista que tem por função exercer a fala e intermediar diálogos - sociedade, órgãos oficiais e por aí vai - é uma agressão, é uma quebra constitucional e, ainda mais, um lembrete histórico de tempos nefastos em que a liberdade não só da imprensa, mas de toda a sociedade, foi cassada. Então, em tempos de democracia, a única resposta ao crime do “cala a boca” é “não! Eu não me calo!”. 

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